Para a crítica gastronômica Ailin Aleixo, comer vai muito além de uma simples refeição. Não chega a ser arte, mas é peça essencial na construção de uma cultura.
Pão de cerveja Guinness, de figo seco com gorgonzola, croissant de amêndoas e até mesmo geleia de morango com manjericão são alguns dos elementos exóticos que fazem parte não só do menu de uma pequena padaria recém inaugurada na Vila Madalena, a Julice Boulangère, como também do extenso repertório gastronômico de Ailin Aleixo, editora da revista Alfa dona do blog Gastrolândia e crítica da área.
Mal sentamos em uma das mesinhas no jardim dessa padaria nada tradicional, Ailin já se levanta. “O serviço aqui não é muito bom. Vou ter que chamar um dos garçons e já volto”. Ela diz isso, entretanto, não com a arrogância que muitos pressupõem existir nos críticos, mas com a naturalidade de quem está acostumado a avaliar de forma exigente todos os passos da experiência gastronômica.
É saboreando um delicioso brunch com pães artesanais, manteiga, queijo branco, croissants, cappuccino e chocolate quente, que Ailin conversa de forma quase metolinguistica sobre sua paixão e seu trabalho – comer e escrever.
- Qual é sua formação e como você foi cair no mundo da gastronomia?
Então, me formei publicitária, mas já comecei trabalhando como jornalista desde que saí da faculdade. Virei editora da revista VIP aos 21 anos e foi lá que uma colega minha despertou essa paixão que tenho hoje pela gastronomia. Desde então, não parei. Depois trabalhei na Viagem e Turismo, Playboy e desenvolvi o projeto editorial da seção de gastronomia da Época. Hoje sou editora da Alfa e escrevo no meu blog, o Gastrolândia.
- Você sente preconceito das pessoas quando diz que é crítica gastronômica?
Tem duas vertentes: ou as pessoas acham que crítico gastronômico é o todo poderoso, ou o que não sabe absolutamente nada. Eu acho que, como em qualquer outra crítica, tem uma parte do trabalho que é conhecimento técnico e tem uma outra parte que, querendo ou não é subjetiva, pessoal.
Porque é meio impossível não ser. É impossível ser 100% impessoal, sendo que todas essas coisas de que se faz critica passam pelo nosso crivo, pelo nosso gosto pessoal – por mais que a gente tenda a amortecer.
Na crítica gastronômica você tem q viajar muito, estudar muito, comer muito, conversar muito com os profissionais. Tem que conhecer como funciona uma cozinha, porque quando vem um prato você tem que saber o grau de dificuldade daquilo.
- Tem que saber cozinhar também?
Não tem, mas eu acho interessante. É a mesma coisa que um crítico de música que não tem noção de como pegar em um violão. Quando você critica, analisa alguma coisa, é essencial entender tudo que está por trás daquilo. Sabe, quando chega um pão daqui para mim, por exemplo, e eu sei que ele é com levain natural [pão de fermentação natural], que demorou uma semana para ficar pronto. Não da pra eu analisar esse pão do mesmo jeito que um pão francês gostosinho. Então eu acho que passar na pele um pouco o que o profissional que faz isso passa é essencial para conhecer o processo.
- Você disse que tem uma parte subjetiva da avaliação que é inevitável. E a parte que não é a subjetiva funciona como? O que tem que ser levado em conta na hora de fazer uma crítica?
Objetivamente você tem que saber a receita original daquilo, pra saber se o cara esta fazendo uma releitura ou uma receita original. Você tem que saber o ponto de cozimento certo das coisas, a apresentação tradicional…enfim, tem que ter um know-how daquilo.
Porque, se eu adoro comer, mas eu nunca estudei nada, e alguém vira para mim e diz: “Eu fiz um bolinho de peixe incrível que é servido frio, com um molho de beterraba” e eu publico isso como sendo uma coisa nova, eu estou errada.
Isso é uma receita que é feita na cozinha judaica há 400 anos… Então se eu não conheço, é muito mais fácil cometer gafes. E critica gastronômica, assim como qualquer outra, é questão de referencial. À medida que você vai conhecendo, experimentando, seu referencial vai aumentando.
- É uma questão de repertório também?
Sim, é uma questão de repertório e referencial. O que acontece hoje no Brasil, de uns oito anos para cá, é que teve um movimento muito legal em parte por causa do Alex [Atala, chef de cozinha] de popularização da gastronomia. E depois que aumentou o poder aquisitivo dos brasileiros, as pessoas começaram a sair mais pra comer fora, muitos cozinheiros foram se formar em escolas no exterior e voltaram pra cá com uma bagagem diferente.
Então hoje você realmente tem um repertorio de cozinhas e técnicas imensamente maior do que se tinha 10 anos atrás. O que acontece é que isso também aumentou o mercado. Tem muita gente escrevendo do que não entende absolutamente nada, mas isso não é só com comida. Os jornais pagam muito pouco, então tem gente fazendo critica de musica na Folha, por exemplo, que está no último ano da faculdade. O cara pode ser incrível, mas ele ainda não tem repertório. Assim, não dá.
- E as pessoas que escrevem em blog de gastronomia? Tem muitas hoje em dia.
Todo mundo tem blog, é muito legal dividir e compartilhar suas impressões sobre as coisas, só que essas pessoas começaram a ser levadas muito a sério. Tem gente que se leva muito a sério.
- Alguns comentários no seu blog são muito violentos…
Mais ou menos 80% dos meus amigos são chefs hoje em dia. E é muito engraçado, porque nem eles são tão radicais assim com as coisas. Mas é que gastronomia virou um uma paixão. Acho que a primeira paixão de um ser humano é comida e isso virou algo que dá status. Falar, entender de gastronomia dá status. Tem um lado que eu acho divertido, porque eu gosto de compartilhar, mas tem um lado bizarro de prepotência, de “eu entendo mais do que você”.
Mas eu acho que isso acontece com todas as críticas. Crítica de música de jornal, por exemplo, acaba brigando um com o outro. Existe uma necessidade humana de se sentir superior ao outro, mas isso está acontecendo mais com gastronomia porque é algo que se popularizou e mais gente se interessa pelo assunto. Há cinco anos você não tinha os dois maiores jornais do país com cadernos dedicados a gastronomia. Você não tinha nem cinco títulos de gastronomia no Brasil.
- Você estava falando que, pra você conhecer e ter aquele repertório, precisa comer muito, falar muito, ler muito, etc. Mas existe uma forma de adquirir um conhecimento mais técnico? Eu sinto falta disso.
Tem curso de cozinha. Porque onde você vai adquirir um conhecimento técnico é na cozinha. Você não precisa fazer faculdade, mas tem um monte de curso legal em São Paulo que você aprende a fazer efetivamente a coisa. Um curso teórico de gastronomia eu acho uma coisa meio complicada. Eu acho a mesma coisa de um curso teórico de pintura: uma hora você tem que botar na prática, uma hora você tem que fazer o negócio.
O meu conhecimento teórico eu adquiri em cozinha, não cozinhando, mas conversando com chef, olhando o movimento, ficando dentro pra ver como é que faz o negócio. Eu acho que, pra quem gosta, é muito legal fazer alguns cursos porque muda muito a perspectiva. Você começa a ter noção que fazer um arroz branco perfeito parece boçal, mas é tão difícil quanto fazer mais incrementado. Por que? Porque você não tem nada para esconder. As coisas mais simples são as mais difíceis.
- Você acha que gastronomia é uma arte?
Eu acho que gastronomia é tão cultura quanto qualquer outra arte. Ela é uma parte importantíssima da cultura de qualquer povo. Eu considero arte pessoas que revolucionam isso, assim, tipo o Adrià [Ferran Adrià, chef espanhol conhecido por fazer gastronomia molecular]. Eu acho que o que ele faz está muito próximo da arte porque ele desconstruiu a comida.
Mas não, não considero a gastronomia uma arte, eu considero a gastronomia uma parte intrínseca da cultura de qualquer povo. Outro dia eu tava entrevistando o Andrew Zimmer do Comidas Exóticas [programa de televisão do canal Discovery Travel & Living]. . Ele falou uma coisa muito interessante: “Eu aprendo muito mais sobre um povo indo no mercado do que indo em museu.” Por um lado ele tem toda razão. Porque a gastronomia é a cultura viva. Tudo na gastronomia tem uma história, tem um background histórico.
- Você acha que aprecia mais um prato quando conhece toda a história dele?
Eu não sei. Eu acho que eu aprecio mais uma boa poesia quando eu conheço a vida do poeta também. Sabe? Eu adoro Manuel Bandeira. Se eu não conhecer eu vou continuar gostando mas sabendo porque o cara escreveu aquilo sempre dá uma mudada, sempre dá um sentimento diferente. Você não precisa saber, mas acho que saber nunca é demais. Ninguém precisa colocar a biografia no cardápio porque no final das contas a pessoa quer saber se é bom ou se é ruim.