Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

O Cronometrista,terceiro longa de Louis Bélanger, acerta ao revelar as facetas sombrias que a natureza humana adquire em situações extremas.

O Cronometrista (The Timekeeper,Canadá, 2008), produção do diretor Louis Bélanger baseada no romance homônimo de Trevor Ferguson, narra a estranha história de Martin Bishop (Craig Olejnik), um canadense de dezoito anos, que, após o falecimento do pai, perde todas suas posses. Na miséria, o jovem se vê obrigado a trabalhar na construção da Grande Ferrovia de Slave Lake para poder sobreviver. Imerso no outono da tundra canadense – uma floresta ao noroeste afastada de qualquer sinal de civilização -, Martin conhece Fisk, chefe das obras e carrasco, que obriga sua legião de 73 trabalhadores a seguir um ritmo caótico de produção: 52 milhas em 52 dias.

A maioria dos homens sob seu comando, pobres, bandidos, analfabetos ou miseráveis, se deixa explorar para conseguir um pagamento ínfimo ao término dos dias. Martin é empregado por Fisk para ocupar o cargo de “cronometrista”, uma vez que o seu predecessor havia “desaparecido”. Sua função é gerir as horas de trabalho de cada um dos 73 homens e manter todos os dados atualizados. Mas o jovem logo percebe a maneira tirana com que Fisk lida com os trabalhadores, explorando, manipulando as horas trabalhadas, abusando de força e de poder, e resolve não ficar calado, questionando e sabotando os métodos do carrasco.

O chefe de obras logo expulsa Martin do campo do acampamento, e o garoto não encontra outra opção senão perambular pela floresta na companhia dos outros excluídos – os chamados garbage eaters (comedores de lixo), que garantem sua sobrevivência alimentando-se dos restos de comida dos ex-colegas.

A partir daí trava-se uma luta para viver e denunciar os abusos cometidos por Fisk. O Cronometrista foca sistematicamente no dualismo do bem contra o mal, do certo contra o errado, do justo contra o injusto – porém de uma forma criativa. Toda a jornada de Martin é guiada por seus princípios e moral, heranças inestimáveis de seu falecido pai. Porém, existe uma linha tênue separando os pólos desses valores: não raro o protagonista, é obrigado a fazer algo a princípio moralmente inaceitável, mas que, dadas as circunstâncias, acaba se justificando.

No entanto, o desempenho de Craig Olejnik deixa a desejar: o ator não consegue transmitir o sentimento de força que seu papel exige, parecendo muitas vezes mais um galã da floresta do que de fato alguém que luta para sobreviver em uma situação adversa. Ademais, o filme apresenta algumas outras falhas, como o desaparecimento repentino e fora de contexto do índio que faz parte do grupo dos garbage eaters.

No entanto, O Cronometrista possui seus méritos – e a fotografia é um deles. Longe de mostrar somente a beleza óbvia da região em que é filmado, a câmera explora a natureza selvagem e muitas vezes traiçoeira da floresta. A trilha sonora, bem pensada, se faz presente em poucos, porém bem escolhidos momentos do filme. God’s Gonna Cut You Down , de Johnny Cash, por exemplo, dá ritmo à fuga de Martin e seu companheiro Scully e transmite o sentimento dessa jornada em busca da liberdade: mais cedo ou mais tarde quem foge acaba encurralado.

Portanto,embora apresente defeitos, O Cronometrista, é em geral, um filme dinâmico e bem elaborado, revelando as profundezas da natureza humana traduzidas nos aspectos psicológicos dos personagens. Terceiro longa metragem de Louis Bélanger,o filme definitivamente faz jus à sua participação na 33a Mostra Internacional de Cinema.

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