Arquivo do dia: agosto 14, 2011

“Gastronomia é tão cultura quanto qualquer outra arte”

Para a crítica gastronômica Ailin Aleixo, comer vai muito além de uma simples refeição. Não chega a ser arte, mas é peça essencial na construção de uma cultura.

Pão de cerveja Guinness, de figo seco com gorgonzola, croissant de amêndoas e até mesmo geleia de morango com manjericão são alguns dos elementos exóticos que fazem parte não só do menu de uma pequena padaria recém inaugurada na Vila Madalena, a Julice Boulangère, como também do extenso repertório gastronômico  de Ailin Aleixo, editora da revista Alfa dona do blog Gastrolândia e crítica da área.

Mal sentamos em uma das mesinhas no jardim dessa padaria nada tradicional, Ailin já se levanta. “O serviço aqui não é muito bom. Vou ter que chamar um dos garçons e já volto”. Ela diz isso, entretanto, não com a arrogância que muitos pressupõem existir nos críticos, mas com a naturalidade de quem está acostumado a avaliar de forma exigente todos os passos da experiência gastronômica.

É saboreando um delicioso brunch com pães artesanais, manteiga, queijo branco, croissants, cappuccino e chocolate quente, que Ailin conversa de forma quase metolinguistica sobre sua paixão e seu trabalho – comer e escrever.

- Qual é sua formação e como você foi cair no mundo da gastronomia?

Então, me formei publicitária, mas já comecei trabalhando como jornalista desde que saí da faculdade. Virei editora da revista VIP aos 21 anos e foi lá que uma colega minha despertou essa paixão que tenho hoje pela gastronomia. Desde então, não parei. Depois trabalhei na Viagem e TurismoPlayboy e desenvolvi o projeto editorial da seção de gastronomia da Época.  Hoje sou editora da Alfa e escrevo no meu blog, o Gastrolândia.

- Você sente preconceito das pessoas quando diz que é crítica gastronômica?

Tem duas vertentes: ou as pessoas acham que crítico gastronômico é o todo poderoso, ou o que não sabe absolutamente nada. Eu acho que, como em qualquer outra crítica, tem uma parte do trabalho que é conhecimento técnico e tem uma outra parte que, querendo ou não é subjetiva, pessoal.

Porque é meio impossível não ser. É impossível ser 100% impessoal, sendo que todas essas coisas de que se faz critica passam pelo nosso crivo, pelo nosso gosto pessoal – por mais que a gente tenda a amortecer.

Na crítica gastronômica você tem q viajar muito, estudar muito, comer muito, conversar muito com os profissionais. Tem que conhecer como funciona uma cozinha, porque quando vem um prato você tem que saber o grau de dificuldade daquilo.

- Tem que saber cozinhar também?

Não tem, mas eu acho interessante. É a mesma coisa que um crítico de música que não tem noção de como pegar em um violão. Quando você critica, analisa alguma coisa, é essencial entender tudo que está por trás daquilo. Sabe, quando chega um pão daqui para mim, por exemplo, e eu sei que ele é com levain natural [pão de fermentação natural], que demorou uma semana para ficar pronto. Não da pra eu analisar esse pão do mesmo jeito que um pão francês gostosinho. Então eu acho que passar na pele um pouco o que o profissional que faz isso passa é essencial para conhecer o processo.

- Você disse que tem uma parte subjetiva da avaliação que é inevitável. E a parte que não é a subjetiva funciona como? O que tem que ser levado em conta na hora de fazer uma crítica?

Objetivamente você tem que saber a receita original daquilo, pra saber se o cara esta fazendo uma releitura ou uma receita original. Você tem que saber o ponto de cozimento certo das coisas, a apresentação tradicional…enfim, tem que ter um know-how daquilo.

Porque, se eu adoro comer, mas eu nunca estudei nada, e alguém vira para mim e diz: “Eu fiz um bolinho de peixe incrível que é servido frio, com um molho de beterraba” e eu publico isso como sendo uma coisa nova, eu estou errada.

Isso  é uma receita que é feita na cozinha judaica há 400 anos… Então se eu não conheço, é muito mais fácil cometer gafes. E critica gastronômica, assim como qualquer outra, é questão de referencial. À medida que você vai conhecendo, experimentando, seu referencial vai aumentando.

- É uma questão de repertório também?

Sim, é uma questão de repertório e referencial. O que acontece hoje no Brasil, de uns oito anos para cá, é que teve um movimento muito legal em parte por causa do Alex [Atala, chef de cozinha] de popularização da gastronomia. E depois que aumentou o poder aquisitivo dos brasileiros, as pessoas começaram a sair mais pra comer fora, muitos cozinheiros foram se formar em escolas no exterior e voltaram pra cá com uma bagagem diferente.

Então hoje você realmente tem um repertorio de cozinhas e técnicas imensamente maior do que se tinha 10 anos atrás. O que acontece é que isso também aumentou o mercado. Tem muita gente escrevendo do que não entende absolutamente nada, mas isso não é só com comida. Os jornais pagam muito pouco, então tem gente fazendo critica de musica na Folha, por exemplo, que está no último ano da faculdade. O cara pode ser incrível, mas ele ainda não tem repertório. Assim, não dá.

- E as pessoas que escrevem em blog de gastronomia? Tem muitas hoje em dia.

Todo mundo tem blog, é muito legal dividir e compartilhar suas impressões sobre as coisas, só que essas pessoas começaram a ser levadas muito a sério. Tem gente que se leva muito a sério.

- Alguns comentários no seu blog são muito violentos…

Mais ou menos 80% dos meus amigos são chefs hoje em dia. E é muito engraçado, porque nem eles são tão radicais assim com as coisas.  Mas é que gastronomia virou um uma paixão. Acho que a primeira paixão de um ser humano é comida e isso virou algo que dá status. Falar, entender de gastronomia dá status. Tem um lado que eu acho divertido, porque eu gosto de compartilhar, mas tem um lado bizarro de prepotência, de “eu entendo mais do que você”.

Mas eu acho que isso acontece com todas as críticas. Crítica de música de jornal, por exemplo, acaba brigando um com o outro. Existe uma necessidade humana de se sentir superior ao outro, mas isso está acontecendo mais com gastronomia porque é algo que se popularizou e mais gente se interessa pelo assunto. Há cinco anos você não tinha os dois maiores jornais do país com cadernos dedicados a gastronomia. Você não tinha nem cinco títulos de gastronomia no Brasil.

- Você estava falando que, pra você conhecer e ter aquele repertório, precisa comer muito, falar muito, ler muito, etc. Mas existe uma forma de adquirir um conhecimento mais técnico? Eu sinto falta disso.

Tem curso de cozinha. Porque onde você vai adquirir um conhecimento técnico é na cozinha. Você não precisa fazer faculdade, mas tem um monte de curso legal em São Paulo que você aprende a fazer efetivamente a coisa. Um curso teórico de gastronomia eu acho uma coisa meio complicada. Eu acho a mesma coisa de um curso teórico de pintura: uma hora você tem que botar na prática, uma hora você tem que fazer o negócio.

O meu conhecimento teórico eu adquiri em cozinha, não cozinhando, mas conversando com chef, olhando o movimento, ficando dentro pra ver como é que faz o negócio. Eu acho que, pra quem gosta, é muito legal fazer alguns cursos porque muda muito a perspectiva. Você começa a ter noção que fazer um arroz branco perfeito parece boçal, mas é tão difícil quanto fazer mais incrementado. Por que? Porque você não tem nada para esconder. As coisas mais simples são as mais difíceis.

- Você acha que gastronomia é uma arte?

Eu acho que gastronomia é tão cultura quanto qualquer outra arte. Ela é uma parte importantíssima da cultura de qualquer povo. Eu considero arte pessoas que revolucionam isso, assim, tipo o Adrià [Ferran Adrià, chef espanhol conhecido por fazer gastronomia molecular]. Eu acho que o que ele faz está muito próximo da arte porque ele desconstruiu a comida.

Mas não, não considero a gastronomia uma arte, eu considero a gastronomia uma parte intrínseca da cultura de qualquer povo. Outro dia eu tava entrevistando o Andrew Zimmer do Comidas Exóticas [programa de televisão do canal Discovery Travel & Living]. . Ele falou uma coisa muito interessante: “Eu aprendo muito mais sobre um povo indo no mercado do que indo em museu.” Por um lado ele tem toda razão. Porque a gastronomia é a cultura viva. Tudo na gastronomia tem uma história, tem um background histórico.

- Você acha que aprecia mais um prato quando conhece toda a história dele?

Eu não sei. Eu acho que eu aprecio mais uma boa poesia quando eu conheço a vida do poeta também. Sabe? Eu adoro Manuel Bandeira. Se eu não conhecer eu vou continuar gostando mas sabendo porque o cara escreveu aquilo sempre dá uma mudada, sempre dá um sentimento diferente. Você não precisa saber, mas acho que saber nunca é demais. Ninguém precisa colocar a biografia no cardápio porque no final das contas a pessoa quer saber se é bom ou se é ruim.

Existe substituto para Chávez na Venezuela?

Presidente retorna para Cuba para se tratar de um câncer e deixa o futuro político do país indefinido
A recente ausência do presidente venezuelano Hugo Chávez para o tratamento de um câncer em Cuba e a nova viagem que ele realizou no sábado para o mesmo país para dar continuidade à luta contra o câncer suscita questões a respeito do futuro político na Venezuela.O fato de Chávez ter decidido comandar o país a partir de Havana durante sua ausência e de ter delegado apenas parte de suas funções ao vice-presidente Elías Jaua mostrou o quanto o poder na Venezuela está concentrado nas mãos de apenas um líder.

Para Cristina Pecequilo, doutora em Ciência Política pela USP e Professora de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a situação política da Venezuela neste momento é bastante instável.

“O grande problema da Venezuela, principalmente para o Hugo Chávez, é que no ano que vem tem a previsão de realização de uma eleição, e o país continua polarizado entre as forças populares e políticas que apoiam ele e as forças que são o contrário”, explica.

A volta de Chávez após a realização de uma cirurgia em Cuba teria sido, assim, uma forma de reafirmar seus objetivos para o eleitorado e de organizar minimamente o cenário politico.

“A volta dele dá a mostra de que haverá uma preocupação muito grande com a continuidade eleitoral. Ele voltou para dar uma aparência para a população de que, para os que o apoiam, ele está doente mas continua combatendo e, para os adversários, que ele está ainda acompanhando o processo”, afirma Cristina.

Oposição

Apesar da brecha deixada por Chávez durante sua breve ausência, a oposição do país não teve tempo suficiente para se organizar e acabou reagindo de forma muito tímida. “Essa brecha não permitiu uma reorganização rápida, tanto que foi por isso que ele voltou, para tentar ser o articulador político desse processo e tentar reordena-lo. Então a oposição ainda está um pouco perdida”, estima a cientista política.

De seu lado, Chávez afirma que não haverá transição no governo e dá a entender que se candidatará às eleições de 2012.  “A oposição e a contrarrevolução andam tramando por aí, dizendo que Chávez já está acabado, que está morrendo, que tem que entregar (o poder), que virá uma transição antes das eleições (…) Se Deus quiser e com a vontade que temos vamos superar tudo isso”, afirmou Chávez em entrevista à imprensa local.

Eleições

O cenário para as eleições presidenciais da Venezuela para o ano que vem ainda é incerto e, por enquanto, não existem sucessores para Chávez nem do lado da oposição, nem dentro do partido do presidente.

Embora o vice-presidente atual de Chávez já tenha sido estimado para sucedê-lo, ele não é bem visto por facções de dentro partido chavista, por ser considerado ainda mais radical que o presidente. Assim, a escolha de um sucessor ainda é indefinida.

“Essa questão não está decidida porque o Chávez sempre centralizou muito o poder no partido. Então, de certa forma, existe uma desarticulação tanto na oposição quanto na própria situação. Os dois lados estão desarticulados e polarizados”, afirma Cristina.

EUA: prazo para acordo está se esgotando

O impasse da elevação do teto da dívida pública coloca em cheque a classe política americana e deixa o país em posição perigosa

 

Um impasse toma conta do governo americano. Deputados e senadores, republicanos e democratas tentam chegar a um acordo sobre a elevação do teto da dívida do país, que atinge atualmente a marca de US$ 14,294 trilhões.

Se os dois partidos não chegarem a um consenso e aprovarem um plano que eleve o teto da dívida até a próxima terça-feira, o país corre o risco de entrar em default, obrigando o governo a fazer cortes nos gastos públicos, que atingirão fatalmente a população.

Na noite da última sexa-feira, a Câmara, de maioria republicana, finalmente aprovou um projeto para elevação do teto – que foi prontamente rejeitado no Senado, de maioria democrata. Uma nova proposta dos democratas também não foi aprovada na noite deste sábado na Câmara, fazendo o clima de tensão aumentar a poucos dias do prazo final para um acordo.

Evaldo Alves, coordenador do curso de Negócios Internacionais e Comércio Exterior da FGV (Faculdade Getúlio Vargas), explica como a crise aconteceu. “Os Estados Unidos atingiram um limite. O endividamento e emissão de títulos da dívida pública americana não pode passar de US$14,3 trilhões e eles já estão atingindo esse patamar”.

O grande empecilho pra solucionar a questão, entretanto, reside nas dissonâncias entre republicanos e democratas. “Os republicanos concordam em aumentar o limite da dívida desde que os impostos não cresçam, optando pelo corte de gastos. Os democratas concordam em cortar gastos, mas  dizem que os impostos têm de aumentar”, explica Evaldo.

Crises como essa no endividamento público, entretanto, não são novidades no país. “É um fator que vem se prolongando desde a última década. Nos últimos anos o governo Bush fez um corte grande de impostos e ao mesmo tempo continuou aumentando os gastos. O Clinton também passou por isso em 1995, quando os republicanos também não quiseram negociar com ele”, relembra Cristina Pecequilo, doutora em Ciência Política pela USP e Professora de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Consequências

Caso um acordo não seja feito e os EUA não aumentem o teto da dívida, as consequências para o país serão grandes. Os cortes de gastos terão impacto direto na população e atingirão as aposentadorias, pensões para viúvas, veteranos de guerra e até mesmo a área da saúde.

Para Evaldo Alves, entretanto, a possibilidade de calote é baixa. “Eu  não acredito que isso possa acontecer, seria o supra sumo da falta de bom senso. Isso no mercado financeiro é muito ruim, seria realmente uma posição muito degradante para um país hegemônico como os Estados Unidos”, comenta. Segundo o professor, nem mesmo o Brasil sairia incólume da situação, já que é hoje em dia o nono maior parceiro comercial dos Estados Unidos.

Obama

Para sair do impasse que já afeta sua popularidade, Obama recorreu até mesmo ao Twiter, pedindo aos seus seguidores e à população que pressionem os senadores e deputados para chegarem logo a um acordo. O índice de aprovação do presidente também caiu para 40%, informou uma pesquisa divulgada na última sexta-feira, resultado da situação econômica do país e da crise da dívida pública. Esse impasse, entretanto, não prejudica somente Obama, na opinião de Evaldo Alves.

“Isso esta afetando o Obama, mas também a popularidade dos republicanos. No fundo, fica a sensação de que a classe política não esta ali para discutir o que é melhor para o país, mas opiniões pessoais acima do interesse nacional”, estima.

Neste sábado os líderes democratas no Congresso se reuniram com Obama na tentativa de conseguir um acordo com os republicanos. Para Cristina, a situação em que o presidente se encontra agora é um sintoma de que seu governo não anda bem. “O Obama não está perdendo só a batalha econômica. Também está perdendo a batalha política”, afirma.

Rebaixamento de crédito não deve afetar EUA

Apesar do rebaixamento do rating americano de AAA para AA+, o principal problema da economia é o baixo crescimento

A recente crise da dívida americana e o rebaixamento da nota do rating de crédito dos EUA pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s de AAA para AA+ criaram um clima de incerteza não só no país como no resto do mundo: uma nova crise econômica estaria a caminho dos Estados Unidos e poderia afetar, mais uma vez, o resto do mundo?

A reação das bolsas européias nesta semana, que sofreram forte queda, contribuíram ainda mais para o cenário de incerteza que começa a se formar ante a economia americana. Para o professor Sidival Guidugli, mestre em Economia pela London University e doutor na mesma área pela Universidade de São Paulo, o rebaixamento da nota de crédito dos EUA não representa, em termos práticos, um perigo para a economia.

“Substantivamente não muda muito, porque, apesar do rebaixamento de uma empresa de rating, as outras mantiveram a classificação AAA e os títulos dos Estados Unidos continuam sendo os mais seguros que você tem no planeta”, afirma Sidival.

O próprio Obama, durante um pronunciamento, subestimou a importância do rebaixamento.

“O fato é que não precisamos de uma agência de rating dizendo ser necessária uma abordagem equilibrada e de longo prazo para a redução do déficit: isso era verdade na semana passada, era verdade no ano passado e era verdade no dia em que assumi o governo”, afirmou.

Queda nas bolsas

A queda em cadeia das bolsas, de acordo com Sidival, também não estaria relacionada ao rebaixamento da classificação, mas sim com um fator mais preocupante.

“O motivo principal da queda nas bolsas tem a ver com a baixa taxa de crescimento da economia americana. As bolsas reagiram mal porque ficou evidente nessa semana que a economia dos EUA, que parecia estar retomando o crescimento, está crescendo pouco – o que é ruim pra economia americana e mundial”, explica.

Em 2010 a economia do país cresceu apenas 2,9%. Uma estimativa do FED (Banco Central Americano) também não trouxe expectativas animadoras: os EUA deverão crescer não mais que 3% neste ano enquanto a China, por exemplo, cresceu 9,6% apenas no primeiro semestre de 2011.

Apesar da queda

Apesar do cenário pouco favorável para o crescimento, os Estados Unidos ainda detêm um grande poder econômico e alto volume de negócios, podendo influenciar outras economias do globo.

“Até onde podemos vislumbrar, eles continuarão sendo a maior economia pelos próximos anos apesar da taxa de crescimento de outros países, como a China. Eles passaram por um período de turbulência mas eles continuam sendo a economia mais influente”, garante o especialista.